Acompanhe a série de cinco reportagens sobre as universidades brasileiras. O repórter Edson Junior vai mostrar como está o ensino superior no país, em oferta de vagas e na qualidade. Será que estamos formando mais e melhor os nossos universitários? Nesta reportagem, vamos tratar de inclusão na sala de aula.
TEXTO
TEC- TRILHA (Salsation – David Shire)
Inclusão. Essa palavra começou a entrar com mais força no vocabulário sobre educação no final dos anos 90 e se referia muito à presença de pessoas com necessidades educacionais especiais dentro das salas de aula de escolas regulares. Em outras palavras, passou-se a preconizar que crianças com deficiência não fossem atendidas exclusivamente em escolas especializadas e passassem ao convívio de uma sala com crianças sem deficiências físicas.
No entanto, o termo “inclusão” teve o seu sentido muito ampliado, sobretudo na expressão “inclusão social”, fazendo referência à necessidade de que as pessoas normalmente excluídas da sociedade, pela condição social, raça, religião, orientação sexual, aparência física e outros fatores, fossem tratadas sem distinção pelos demais. Isso demandava não apenas uma mudança de comportamento social, mas a adoção de políticas públicas para a garantia de direitos.
No caso das universidades, essas políticas públicas melhoraram o acesso de pessoas de baixa renda, mas a maior parte da população universitária brasileira ainda é das classes sociais economicamente mais altas. Fato é que a universidade está longe de representar proporcionalmente a diversidade social do Brasil. Uma das iniciativas adotadas para tentar resolver essa desigualdade foi a destinação de vagas por cotas. Em algumas universidades, por critério racial, em outras por critérios sócio-econômicos, ou pelo fato de o candidato possuir alguma deficiência.
A UNB, Universidade de Brasília, optou pelo sistema de cotas raciais por entender que a proporção de negros entre os alunos e professores da instituição era muito inferior à da população em geral, como relata o antropólogo José Jorge de Carvalho, professor da instituição e responsável pela implantação do sistema de cotas.
“Fizemos uma espécie de censo entre os professores e descobrimos que a UNB tinha, no ano de 1998, ela tinha 1500 professores e apenas 15 professores negros, ou seja, apenas 1% do seu corpo docente era constituído de negros. Isso não mudou de lá para cá. Então isso é o padrão das nossas universidades, elas funcionam segregadamente, elas funcionam como se fosse um apartheid e não há outro modo de alterar esse padrão que não seja através de cotas. Começamos a formular então sistema de cotas para a graduação, que agora nós temos que avança-lo para além, para o mestrado, doutorado, para carreira docente, carreira de pesquisa.”
O antropólogo acredita, no entanto, que a cota racial não é a única que deve ser adotada para corrigir as distorções em relação à diversidade social nas universidades.
“Se você descobre que há poucos negros na Universidade você coloca cotas para negros; se você avalia também que tem poucos estudantes para escolas públicas você coloca uma segunda cota, que seria cota para estudantes de escolas públicas; e se ainda reconhece que tem muito poucos estudantes de baixa renda você coloca um terceiro critério de cota para estudantes de baixa renda. Não é preciso que uma fique no lugar da outra porque são exclusões diferentes, que têm sua própria história.”
Para a advogada e procuradora do Distrito Federal Roberta Fragozo Kaufmann, a adoção de critérios exclusivamente raciais para a destinação de cotas nas universidades não contempla as diferenças sociais existentes no país. Ela afirma que, em dez anos da adoção de cotas raciais na UNB, a proporção de alunos de baixa renda na universidade cresceu menos de 1%.
“Se no Brasil 73% dos pobres são negros, se você fizer uma política de recorte social (e essa política vai ter critérios objetivos, como por exemplo, renda mínima, por exemplo, ter estudado a vida inteira em escola pública), você vai integrar os negros que mais precisam da ajuda estatal sem corrermos os riscos de fomentar o racismo, o ódio e a racialização do Brasil. Porque na verdade é a pobreza no Brasil que é o grande fator de segregação e não a cor da pele sozinha.”
Mas garantir a inclusão dentro do ambiente universitário é mais do que garantir o ingresso: é preciso que as condições para que o estudante tenha um bom desempenho sejam dadas. Isso vai desde programas como os subsídios para que os estudantes utilizem o transporte público e possam se deslocar até a universidade, à quebra das barreiras arquitetônicas, de comunicação e atitudinais em relação aos universitários com algum tipo de deficiência. Na universidade Federal de Goiás, foi criado o Núcleo de Acessibilidade, que procura atender aos estudantes com deficiência para que tenham as condições adequadas para desenvolver sua atividade acadêmica. Quem explica o funcionamento do núcleo é o seu coordenador, professor Ricardo Gonçalves Teixeira.
“Cada unidade tem autonomia para o desenvolvimento desse trabalho. O núcleo funciona como apoio e referência. Então toda e qualquer demanda sobre especificidade de material, de produto, seja de serviço, é encaminhado para nós enquanto núcleo, e nós vamos buscar as soluções, custos, capacitações, materiais, recursos, em atendimento a demanda. Essa é a filosofia nossa enquanto núcleo. Nós não trabalhamos a filosofia do assistencialismo. A gente é contrário a isso. A gente tenta trabalhar a autonomia do aluno.”
No Centro Universitário Iesb, instituição privada de Brasíllia, a presença da aluna Jéssica Mendes no curso de fotografia não passou despercebida. A Síndrome de Down não foi empecilho para que a jovem de 21 anos levasse muito a sério sua carreira estudantil. Depois de concluir o ensino médio, Jéssica prestou três vestibulares e foi aprovada em todos, incluindo a primeira etapa da UNB para artes cênicas. Mas o sonho dela mesmo era estudar fotografia e design de modas. Escolheu o Iesb porque era o curso que ela queria fazer e no turno que ela gostaria de estudar. E o curso de design de modas? Jéssica tem planos de fazê-lo assim que concluir a faculdade atual. O coordenador do curso de fotografia do Iesb, Paulo Morais, fala da riqueza da experiência de receber Jéssica como aluna.
“A gente sempre escuta falar muito de inclusão, só que a gente nunca coloca em prática. Então quando a gente recebe, é uma coisa que a gente assusta no início e fala: 'como é que é? Pêra aí...como é que funciona?' A gente não sabe para o lado que vai. Mas aí quando a coisa começa andar, você vê que a coisa é tranquila. Ela é uma aluna normal e ela tá ali para fazer o curso como qualquer outro. Ela é uma aluna maravilhosa!”
Guilherme Melo, pai da estudante, afirma que sempre houve apoio da família para que ela pudesse superar os seus limites. Ele diz ainda que dá apoio para que Jéssica apareça em eventos e reportagens para servir de incentivo a outros pais de crianças com necessidades especiais. Melo acredita que o exemplo da filha pode servir de motivação e conta que um dia ele próprio precisou ser motivado.
“Quando a Jéssica nasceu, eu fui no colégio e vi um menininho de dois anos e meio, três anos, não sei... há vinte anos atrás a gente não sabia se a Jéssica caminhava, se falava...o que ia acontecer da vida. E quando eu vi aquele menininho, aquilo lá me motivou muito, falei: 'esse moleque corre, brinca, fala e para mim, na idade dele, é uma criança natural, normal'. Porque no primeiro momento é uma coisa difícil, assim, de você, até mesmo por conta da sociedade, que vai excluindo. Até hoje é assim também. É a família acreditar. É a família respeitar. Até hoje a gente faz isso: 'Jéssica, você quer continuar o curso? Você tá feliz? Você tá alegre?'. Então a gente vai indo e dando corda e ela vai indo."
E é a própria Jéssica Mendes que nos conta como começou sua paixão por fotografia.
“É assim, eu...eu participava de um grupo de fotografia lá na associação DF Down e eu gostava muito. Aí, depois eu pesquisei muito e foi aí que decidi: esse é o curso que eu quero fazer mesmo. É o curso que tem muito a ver comigo. Aí é isso.”
TEC- TRILHA (Queen – We are the Champions)
Que barreiras nós temos que superar no dia a dia? Limitações físicas, barreiras arquitetônicas, falta de comunicação? Jéssica Mendes supera as limitações que um cromossomo a mais em suas células insiste em impor. E passo a passo, ela vai superando todas elas. A Síndrome de Down tenta tornar sua mente menos capaz de aprender. Mas é a Síndrome de Down que é incapaz contra a força e a vontade de aprender de Jéssica.