quinta-feira, 8 de outubro de 2009

A identificação racial é positiva para os brasileiros? Com a palavra, Militão!


Em resposta à matéria postada no site da UnB em 08/10/2009

Prezada Doutora Cordélia, saudações.

Na condição de afro-brasileiro e ativista contra o racismo, li a resenha científica divulgada pelo Portal da UnB (ler aqui) e tomo a liberdade de tomar vosso precioso tempo para tecer alguns comentários que julgo pertinentes em face do momento histórico que vivemos: devemos ou não reforçar a identidade racial do povo como tem procurado fazer setores dos diversos movimentos negros, exigindo que o Estado crie e acolha na ordem jurídica uma cidadania com ´raça´ estatal?

Inicialmente apresento-lhe meus cumprimentos pela exitosa carreira acadêmica e pela escolha da pesquisa para compreensão do racismo no Brasil, refletida na linguagem o que, verdadeiramente, precisamos melhor compreender e a academia tem enorme responsabilidade nisso e acho que vossa pesquisa vem contribuir, embora, dela possa ser retiradas conclusões em outra área das ciências sociais, a da sociologia, e que são bem distintas. Vejo que temos o mesmo objetivo: combater o racismo. Ao meu ver a falta de identidade racial é positiva, e ao ver da pesquisadora: o não pertencimento racial é negativo.

Devo manifestar, que recebi com grande satisfação a constatação acadêmica que os brasileiros não desfrutamos e não gostamos de ter uma identidade racial. A partir dessa constatação, com o devido respeito, constato que há equívocos nas conclusões sociológicas manifestas na resenha. Os dois exemplos de racismo citados (o homem no banco e a mulher no supermercado) são evidências que o racismo somente é praticado por quem tem identidade racial, portanto, por quem acredita em ´raças´ e, por decorrência, acredita que nós, afrodescendentes, pertencemos a uma ´raça inferior´.

A pesquisa da linguagem racialista que você propõe é relevante. Afinal, se foi a academia que criou na linguagem discursiva e agora a linguagem política com a categoria racial de ´raça negra´ quando a partir do início do século passado, embasados no pensamento racial científico, foi a academia que passou a designar os pretos e pardos como sendo a ´raça negra´. Portanto, a ela, academia, caberá desconstruir essa linguagem e esse proselitismo do pensamento racial e estudos como esse, trilham para a evidência científica disso. Porém, as evidências da linguagem corrente no seio da sociedade não autorizam conclusões sociológicas que justifiquem ou recomendem, conforme sugere a resenha, que precisamos de uma sociedade com identidade racial.

A propósito disso, lembro, nossos avós eram ´Homens e Mulheres de cor´. Nossa resistência e luta pela liberdade foi edificada por milhares de Irmandades e Cemitérios de ´Homens Pretos´, Homens ´Pardos´ e ´Pretos Novos´ e em milhares de quilombos, muitos ainda subsistentes, em que os Remanescentes zelam pelas terras de ´pretos´. Em todas as regiões do Brasil, ainda há, terras de ´pretos´.

Veja, a importância da linguagem que vosso trabalho vem nos confirmar. Eram portanto auto-designados como humanos ´de cor´. Os humanos, Doutora Cordélia, têm ou não a cor da melanina. Humanos não têm raças.

Conforme se vê, Doutora Cordélia, nós afro-brasileiros, de fato sempre recusamos uma identidade racial e isso não é fruto do racismo. Isso significa o fracasso do racismo que não conseguiu racializar a cabeça dos afro-descendentes no Brasil.

Isso, perdoe-me a afirmação, é fruto da consciência de humanos dos afro-brasileiros, pois o desejo e a meta do racismo é que nós sejamos pertencentes à ´raça negra´, aquela que o racista afirma ser a ´raça inferior´. Quem acredita em ´raça´, sonega a inteira humanidade dos pretos e pardos.

Destarte, infelizmente, a ilustre pesquisadora de lingüística, ao avançar nos campos da antropologia e da sociologia, com a devida vênia, concluiu de forma equivocada, ao considerar que nossa DESCRENÇA em raça seja fruto do racismo, o que vem estampado em vasto currículo acadêmico, até pelo título de um de seus principais trabalhos, que não tive acesso na íntegra: A REPRESENTAÇÃO DA “RAÇA NEGRA” NO BRASIL: IDEOLOGIA E IDENTIDADES, Orientador: JOSENIA ANTUNES VIEIRA.

Pelo que se vê, a senhora, tal como os afro-americanos, acredita no pertencimento a uma ´raça negra´. A maioria dos pretos e pardos não crêem nisso.

Assim, bem pelo contrário da conclusão acadêmica exposta na resenha, a pesquisadora representa a vitória do racismo e nós, maioria do povo afro-brasileiro, representamos que o racismo não triunfou entre nós: não temos e não queremos a identidade racial, especialmente se imposta pelo Estado conforme a pesquisa CIDAN/IBPS (v. Google) divulgada no Rio de Janeiro em 19/11/2008, em que, 62,3% dos pretos e 64,1% dos pardos, NÃO APOIARAM as leis de cotas raciais vigentes naquele Estado.

Isso não significa apequenar a gravidade do racismo no dia a dia dos brasileiros, mas penso ser evidente que será mais fácil destruir o racismo numa população que não tenha a identidade racial, do que combatê-lo e destruí-lo onde a identidade racial esteja presente, conforme ocorre nos EUA, onde brancos e pretos não têm dúvidas quanto a seu pertencimento racial.

Espero que iniciemos aqui um proveitoso diálogo e reflexões, e copio a presente a uma lista de pessoas, pertencentes à academia e a movimentos sociais de combate ao racismo, pois precisamos exaurir as reflexões que nos conduza a maior eficácia no combate ao racismo, a única razão de vir importuná-la em momento de tão grande e merecido júbilo acadêmico.

Fraternalmente,

José Roberto F. Militão,
Membro da CONAD-Comissão de Assuntos AntiDiscriminatórios da OAB/SP
- Ativista contra o racismo e contra o racialismo estatal.
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7 comentários:

Conrado Fernandes disse...

Recentemente fui realizar uma consulta médica devido aos exames de rotina (PCMSO) de minha empresa e optei por não preencher qualquer das opções relativas a minha cor ou raça. Isso porque, apesar de sempre ter me considerado branco, em recente viagem a França, percebi que não me identifico com o fenótipo Europeu dominante (loiro, olhos azuis e pele clara que não "pega bronze"). Porém, assim que adentrei ao consultório, entreguei o documento à médica que o analisou e preencheu aquele campo marcando a opção onde se lia "branco". De fato, minha cútis é clara, entretanto sua tonalidade varia sensivelmente conforme me exponho ao sol. Por essas razões, não me senti seguro para afirmar naquele formulário que sou branco. Contudo, também não me identifico com o Pelé ou com o Ronaldinho Gaúcho, ou com o Militao. Disso concluo com toda a segurança que, se existe raça que divida a humana, não qual é a minha. Mas estou convicto de que sou brasileiro.

Conrado Fernandes disse...

Corrigindo o final ...Disso concluo com toda a segurança que, se existe raça que divida a humana, não SEI qual é a minha. Mas estou convicto de que sou brasileiro.

Anônimo disse...

Parabens ao Militão. O racismo, embora existentes de forma pontual, não é apoiado nem exercido pela imensa maioria dos brasileiros. Aliás, já estava em franca extinçào no Brasil, quando foi ressucitado pelo racialismo atual. Nós brasileiros nunca selecionamos ou selecionavamos amigos e amigas, namoradas, com base na cor da pele. Agora parece que termos que conhecer o maldito racismo, a partir do do racialismo patrocinado pelo governo. Tristes dias...

Anônimo disse...

Parece haver no discurso do Sr. Militão uma tremenda confusão entre raça no sentido biológico e raça no sentido social e cultural. Biologicamente, não existem raças. Isso já foi longamente abordado por diversos autores. Mas como ele mesmo confirma, ao se dizer afrodescendente, existe, em certa medida, uma identidade cultural que une os afrodescendentes.
O racismo, que é uma forma de preconceito, existe, sim, principalmente contra as pessoas de pele escura. O preconceito existe contra todos aqueles que fogem do dito "normal". Os deficientes físicos sofrem preconceito, os gordos, idem, bem como, os orientais, os judeus, os muçulmanos e etc. O preconceito sempre recai sobre as minorias de uma dada sociedade. É por isso que precisamos saber conviver com as diferenças. Conviver e saber respeitar.

Anônimo disse...

Achei muito inteligente a visão do Sr Militão. Eu não sabia que a maioria dos negros e pardos rejeita a classificação racial, mas isso me deixa bastante contente. É mais assunto no qual o "politicamente correto" é o oposto exato do que o povo realmente quer.

Quanto ao racismo, penso que só se resolve se as pessoas (não o governo (três poderes), cuja função é apenas fazer leis, em consonância com o que quer o povo e e aplica-las) agirem caso a caso, chamando a polícia quando é o caso, ou discutindo e conversando, quando é o caso. Fora isso, o mais importante é que as pessoas busquem a educação melhor para todos. Educação nivelada por cima, principalmente nos primeiros anos, destrúiria grande parte das diferenças sociais de forma pacífica e produtiva.

Renato

Anônimo disse...

Desculpem o erro, não fiz revisão

leia-se: destruiria

Renato

Rosa Simão disse...

Parabéns ao Militão e aos comentaristas que me precederam.
Pertenço à raça humana, sou brasileira, como a grande maioria dos brasileiros sou fruto de miscigenação e observo que o racismo é algo criado não é observável naturalmente em crianças estas não fazem diferença nenhuma entre os amigos. Só fazem diferença aqueles que aprendem com adultos. Mais uma vez aprendam com as crianças. Outro ponto a diversidade, em todas as áreas, é que faz a riqueza de um povo.
Rosa Simão