domingo, 11 de outubro de 2009

A ideologia da Raça

Jornal Opção On line
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DA­NIN JÚ­NI­OR
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(...) Pe­lo pro­je­to ra­ci­al do go­ver­no bra­si­lei­ro, to­dos os ci­da­dã­os de­ve­ri­am se iden­ti­fi­car ofi­ci­al­men­te co­mo ne­gros ou bran­cos. E es­sa iden­ti­fi­ca­ção de­ve ocor­rer o quan­to an­tes — por exem­plo, lo­go que a cri­an­ça se ma­tri­cu­la pe­la pri­mei­ra vez na re­de pú­bli­ca de en­si­no. A par­tir des­sa dis­tin­ção, um es­tu­dan­te que se de­cla­rar ne­gro e atin­gi­do por pre­con­cei­to po­de­rá re­que­rer tra­ta­men­to es­pe­ci­al em ves­ti­bu­la­res e con­cur­sos pú­bli­cos, be­ne­fi­ci­an­do-se de co­tas es­pe­cí­fi­cas. Des­sa for­ma, a ad­mi­nis­tra­ção pú­bli­ca re­co­nhe­ce a exis­tên­cia de ci­da­dã­os de se­gun­da clas­se (que pre­ci­sam de su­por­te di­fe­ren­ci­a­do quan­do com­pa­ra­dos com ou­tros ci­da­dã­os).
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Es­se ab­sur­do é uma for­ma de isen­tar o Es­ta­do de seu fra­cas­so na pro­mo­ção da igual­da­de de opor­tu­ni­da­des (por meio da edu­ca­ção bá­si­ca). A sor­te é que, aos pou­cos, se­to­res mais con­sci­en­tes do Pa­ís co­me­çam a se le­van­tar con­tra es­sas idéi­as dis­tor­ci­das. As po­lí­ti­cas ra­ci­ais do Bra­sil fo­ram al­vo de es­tu­dos re­la­ti­va­men­te re­cen­tes de dois so­ci­ó­lo­gos de gran­de pre­sen­ça na mí­dia — De­mé­trio Mag­no­li e Ali Ka­mel.
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Boa par­te des­te ar­ti­go é ins­pi­ra­da pe­los le­van­ta­men­tos que am­bos re­u­ni­ram em du­as obras im­per­dí­veis e que fre­qüen­tam as lis­tas de mais ven­di­das nas li­vra­ri­as. Um de­les (Mag­no­li) com­pro­va mi­nu­ci­o­sa­men­te co­mo a pró­pria no­ção de ra­ça ser­viu ide­o­lo­gi­ca­men­te em di­ver­sos mo­men­tos his­tó­ri­cos. O ou­tro li­vro (me­nos ela­bo­ra­do, mas não me­nos con­tun­den­te) é um gri­to de re­vol­ta con­tra a ten­ta­ti­va de tor­nar o Bra­sil um pa­ís ra­cis­ta. (...)
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Um con­cei­to com uti­li­da­de pa­ra to­dos
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“Uma go­ta de san­gue”, de De­mé­trio Mag­no­li (Edi­to­ra Con­tex­to, 2009, R$ 50), é um li­vro im­pres­sio­nan­te. So­ci­ó­lo­go, com dou­to­ra­do em Ge­o­gra­fia Hu­ma­na, Mag­no­li é um pes­qui­sa­dor cri­te­rio­so (su­as in­for­ma­ções são ri­go­ro­sa­men­te re­fe­ren­ci­a­das), que sa­be es­cre­ver pa­ra o gran­de pú­bli­co. Seu es­ti­lo foi apu­ra­do na ro­ti­na de ar­ti­cu­lis­ta, por vá­rios anos, da “Fo­lha de S. Pau­lo”, ten­do se trans­fe­ri­do re­cen­te­men­te pa­ra o “Es­ta­dão”. Seu no­vo tra­ba­lho im­pres­sio­na por­que de­mons­tra co­mo o con­cei­to de ra­ça (e o ra­cis­mo em­bu­ti­do nes­sas de­fi­ni­ções ci­en­tí­fi­cas ou não) foi evo­lu­in­do ao lon­go da his­tó­ria, sem­pre ser­vin­do aos mais di­fe­ren­tes in­te­res­ses. Mag­no­li pes­qui­sou o as­sun­to pro­fun­da­men­te ten­tan­do con­tex­tu­a­li­zar o sur­gi­men­to e as trans­for­ma­ções do pen­sa­men­to ra­ci­al. Nes­sa jor­na­da, fla­grou uma sé­rie de con­tra­di­ções. Uma de­las é a cons­ta­ta­ção, até cer­to pon­to irô­ni­ca, de que foi no ilu­mi­nis­mo a pri­mei­ra oca­si­ão em que se ten­tou jus­ti­fi­car a es­cra­vi­dão com tes­es ra­ci­ais. Até en­tão, a ques­tão dos es­cra­vos era uma sim­ples con­se­quên­cia das guer­ras. É o sur­gi­men­to do ra­cis­mo ci­en­tí­fi­co, ba­se­a­do na Eu­ro­pa e nos Es­ta­dos Uni­dos, que ten­tou le­gi­ti­mar a opres­são de po­vos co­lo­ni­za­dos da Áfri­ca e da Ásia. Cri­a­dor da te­se evo­lu­cio­nis­ta é iden­ti­fi­ca­do por Mag­no­li co­mo um ra­cis­ta en­ca­bu­la­do.
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As atu­ais po­lí­ti­cas de co­tas do go­ver­no fe­de­ral cum­prem um pa­pel ide­o­ló­gi­co in­ver­so, mas que le­va em con­ta o mes­mo ti­po de se­gre­ga­ção pre­co­ni­za­do pe­lo ra­cis­mo ci­en­tí­fi­co no sé­cu­lo 18. Só que a “mo­der­ni­da­de”trou­xe no­vas ter­mi­no­lo­gi­as. Es­sa se­gre­ga­ção in­ver­sa em de­fe­sa dos ne­gros re­ce­beu o no­me de mul­ti­cul­tu­ra­lis­mo. Co­mo diz Mag­no­li, é o ra­cis­mo com uma no­va rou­pa­gem. As co­tas, ca­da vez mais in­cen­ti­va­das pe­lo go­ver­no fe­de­ral, des­per­ta­ram o in­te­res­se e a re­pul­sa do au­tor, que pas­sou anos es­tu­dan­do o as­sun­to. Mag­no­li não tem mei­as-pa­la­vras. A res­pei­to das ações afir­ma­ti­vas, ele é bem di­re­to: “Ra­ça é, pre­ci­sa­men­te, a rei­vin­di­ca­ção de um gue­to”. Por es­se ra­ci­o­cí­nio, o jo­vem que se as­su­me co­mo ne­gro pa­ra ob­ter um tra­ta­men­to di­fe­ren­ci­a­do da ad­mi­nis­tra­ção pú­bli­ca ou em ves­ti­bu­la­res de fa­cul­da­des par­ti­cu­la­res, es­tá ad­mi­tin­do uma li­mi­ta­ção gra­vís­si­ma em su­as po­ten­ci­a­li­da­des. De­pois de ar­gu­men­tar que os es­tu­dos ge­né­ti­cos con­fir­mam que os fa­to­res di­fe­ren­ci­ais são mí­ni­mos no ge­no­ma hu­ma­no – pra­ti­ca­men­te res­tri­tos à cor­da pe­le.
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Se­gun­do Mag­no­li, há du­as vi­sões de mun­do. Uma ain­da acre­di­ta que a hu­ma­ni­da­de se di­vi­de em ra­ças. A se­gun­da pers­pec­ti­va é a ad­vo­ga­da por ele: re­jei­ta a se­pa­ra­ção da es­pé­cie hu­ma­na em ca­te­go­ri­as con­ven­cio­na­das e de­fen­de a igual­da­de en­tre as ra­ças. Con­tra a so­ci­e­da­de ima­gi­na­da por FHC.
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Ou­tra obra que ins­pi­ra o de­ba­te so­bre as po­lí­ti­cas afir­ma­ti­vas do go­ver­no fe­de­ral é “Não so­mos ra­cis­tas”, de Ali Ka­mel (Edi­to­ra No­va Fron­tei­ra, 2006, R$ 25). So­ci­ó­lo­go co­mo De­mé­trio Mag­no­li, Ka­mel tam­bém é jor­na­lis­ta – ele, ali­ás, es­tá em um dos cu­mes da mí­dia na­ci­o­nal, já que é o di­re­tor da Cen­tral Glo­bo de Jor­na­lis­mo. Me­nos em­ba­sa­do que o co­le­ga de Ci­ên­cias So­ci­ais, seu li­vro é uma com­pi­la­ção de ar­ti­gos pu­bli­ca­dos des­de 2003 no “Glo­bo”. Seus ar­gu­men­tos são se­me­lhan­tes:?“Ra­ças não exis­tem”, diz ele, re­cor­ren­do às des­co­ber­tas ge­né­ti­cas. Pa­ra o jor­na­lis­ta, o go­ver­no bra­si­lei­ro ten­ta mon­tar uma es­pé­cie de far­sa pa­ra dar sa­tis­fa­ção a gru­pos so­ci­ais que in­te­gram a má­qui­na par­ti­dá­ria que o ele­geu. Mas Ka­mel não cru­ci­fi­ca o PT iso­la­da­men­te. Uma dos mai­o­res in­te­res­ses do li­vro é de­mons­trar co­mo to­da es­sa his­tó­ria de co­tas so­ci­ais fo­ram en­sai­a­das no go­ver­no Fer­nan­do Hen­ri­que. O jor­na­lis­ta-so­ci­ó­lo­go pa­re­ce ter pra­zer em fla­grar in­con­sis­tên­cias nos pri­mei­ros tra­ba­lhos aca­dê­mi­cos de FHC, ain­da nos anos 50. Se­gun­do Ka­mel, o pre­si­den­te-so­ci­ó­lo­go era ten­den­ci­o­so em seus es­tu­dos, que des­pre­za­va re­fe­rên­cias con­trá­ri­as às su­as tes­es e enal­te­cia quem as com­pro­va­va.
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Pa­ra o au­tor de “Não so­mos ra­cis­tas” as ações afir­ma­ti­vas ini­ci­a­das por FHC são uma ma­ni­fes­ta­ção tar­dia do so­ci­ó­lo­go mar­xis­ta da me­ta­de do sé­cu­lo pas­sa­do. A en­cren­ca de Ka­mel com FHC é mui­to sim­ples. O pri­mei­ro en­ten­de que a prin­ci­pal cau­sa das de­si­gual­da­des no Bra­sil é a fal­ta de opor­tu­ni­da­des, de me­lhor edu­ca­ção. O pro­ble­ma se­ria a po­bre­za e não o ra­cis­mo. As pes­so­as se­ri­am dis­cri­mi­na­das não pe­la cor da pe­le, mas pe­lo que car­re­gam no bol­so. Nos anos 50, FHC con­si­de­ra­va es­se ti­po de con­ver­sa co­mo uma alie­na­ção (che­ga a tri­pu­di­ar dos que a de­fen­di­am). Mas o ex-pre­si­den­te pa­re­ce ter des­pre­za­do o ris­co de se cri­ar um con­tin­gen­te de ci­da­dã­os de se­gun­da clas­se, que pre­ci­sam de uma mão­zi­nha pa­ra se sus­ten­ta­rem.
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1 comentários:

Anônimo disse...

"Mag­no­li não tem mei­as-pa­la­vras. A res­pei­to das ações afir­ma­ti­vas, ele é bem di­re­to: “Ra­ça é, pre­ci­sa­men­te, a rei­vin­di­ca­ção de um gue­to”. Por es­se ra­ci­o­cí­nio, o jo­vem que se as­su­me co­mo ne­gro pa­ra ob­ter um tra­ta­men­to di­fe­ren­ci­a­do da ad­mi­nis­tra­ção pú­bli­ca ou em ves­ti­bu­la­res de fa­cul­da­des par­ti­cu­la­res, es­tá ad­mi­tin­do uma li­mi­ta­ção gra­vís­si­ma em su­as po­ten­ci­a­li­da­des. De­pois de ar­gu­men­tar que os es­tu­dos ge­né­ti­cos con­fir­mam que os fa­to­res di­fe­ren­ci­ais são mí­ni­mos no ge­no­ma hu­ma­no – pra­ti­ca­men­te res­tri­tos à cor­da pe­le."

Outra confusão entre raça no sentido biológico (totalmente furada; aliás, já faz tempo) e "raça" no sentido socio-cultural.
Pessoas que tem a cor da pele negra, geralmente pobres, sempre sofreram preconceito neste país. Nada mais justo do que procurar compensar todas essas injustiças com cotas nas universidades, por exemplo.

"Me­nos em­ba­sa­do que o co­le­ga de Ci­ên­cias So­ci­ais, seu li­vro é uma com­pi­la­ção de ar­ti­gos pu­bli­ca­dos des­de 2003 no “Glo­bo”. Seus ar­gu­men­tos são se­me­lhan­tes:?“Ra­ças não exis­tem”, diz ele, re­cor­ren­do às des­co­ber­tas ge­né­ti­cas."

Mais outro querendo confundir. Raças biológicas não existem, mesmo, mas o preconceito contra pessoas de cor negra, e outros preconceitos que existem "a rodo" nas sociedades humanas existem sim, e geram diversas injustiças sociais, que podem ser amenizadas com medidas como as cotas "raciais".
É lamentável o título do Livro: "Não Somos Racistas".
Ele quer usar o conhecimento da genética (que novidade, hein!!!) para afirmar que, como não existem raças biológicos, logo, não existe racismo!!!

"Mas o ex-pre­si­den­te pa­re­ce ter des­pre­za­do o ris­co de se cri­ar um con­tin­gen­te de ci­da­dã­os de se­gun­da clas­se, que pre­ci­sam de uma mão­zi­nha pa­ra se sus­ten­ta­rem."

"...risco de se criar um contigente de cidadãos de segunda categoria"!!!!!!

Cidadãos de segunda categoria estão sendo criados já faz tempo por essa sociedade injusta, racista. As ações afirmativas, visam, justamente, amenizar essas diferenças, em curto prazo, enquanto a sociedade continaur injusta!!!!

Fazer afirmações como "precisam de uma mãozinha", é sintomático.

Valha-me!!