Jornal Opção On line
.DANIN JÚNIOR
.(...) Pelo projeto racial do governo brasileiro, todos os cidadãos deveriam se identificar oficialmente como negros ou brancos. E essa identificação deve ocorrer o quanto antes — por exemplo, logo que a criança se matricula pela primeira vez na rede pública de ensino. A partir dessa distinção, um estudante que se declarar negro e atingido por preconceito poderá requerer tratamento especial em vestibulares e concursos públicos, beneficiando-se de cotas específicas. Dessa forma, a administração pública reconhece a existência de cidadãos de segunda classe (que precisam de suporte diferenciado quando comparados com outros cidadãos).
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Esse absurdo é uma forma de isentar o Estado de seu fracasso na promoção da igualdade de oportunidades (por meio da educação básica). A sorte é que, aos poucos, setores mais conscientes do País começam a se levantar contra essas idéias distorcidas. As políticas raciais do Brasil foram alvo de estudos relativamente recentes de dois sociólogos de grande presença na mídia — Demétrio Magnoli e Ali Kamel.
.Boa parte deste artigo é inspirada pelos levantamentos que ambos reuniram em duas obras imperdíveis e que freqüentam as listas de mais vendidas nas livrarias. Um deles (Magnoli) comprova minuciosamente como a própria noção de raça serviu ideologicamente em diversos momentos históricos. O outro livro (menos elaborado, mas não menos contundente) é um grito de revolta contra a tentativa de tornar o Brasil um país racista. (...)
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Um conceito com utilidade para todos
.“Uma gota de sangue”, de Demétrio Magnoli (Editora Contexto, 2009, R$ 50), é um livro impressionante. Sociólogo, com doutorado em Geografia Humana, Magnoli é um pesquisador criterioso (suas informações são rigorosamente referenciadas), que sabe escrever para o grande público. Seu estilo foi apurado na rotina de articulista, por vários anos, da “Folha de S. Paulo”, tendo se transferido recentemente para o “Estadão”. Seu novo trabalho impressiona porque demonstra como o conceito de raça (e o racismo embutido nessas definições científicas ou não) foi evoluindo ao longo da história, sempre servindo aos mais diferentes interesses. Magnoli pesquisou o assunto profundamente tentando contextualizar o surgimento e as transformações do pensamento racial. Nessa jornada, flagrou uma série de contradições. Uma delas é a constatação, até certo ponto irônica, de que foi no iluminismo a primeira ocasião em que se tentou justificar a escravidão com teses raciais. Até então, a questão dos escravos era uma simples consequência das guerras. É o surgimento do racismo científico, baseado na Europa e nos Estados Unidos, que tentou legitimar a opressão de povos colonizados da África e da Ásia. Criador da tese evolucionista é identificado por Magnoli como um racista encabulado.
.As atuais políticas de cotas do governo federal cumprem um papel ideológico inverso, mas que leva em conta o mesmo tipo de segregação preconizado pelo racismo científico no século 18. Só que a “modernidade”trouxe novas terminologias. Essa segregação inversa em defesa dos negros recebeu o nome de multiculturalismo. Como diz Magnoli, é o racismo com uma nova roupagem. As cotas, cada vez mais incentivadas pelo governo federal, despertaram o interesse e a repulsa do autor, que passou anos estudando o assunto. Magnoli não tem meias-palavras. A respeito das ações afirmativas, ele é bem direto: “Raça é, precisamente, a reivindicação de um gueto”. Por esse raciocínio, o jovem que se assume como negro para obter um tratamento diferenciado da administração pública ou em vestibulares de faculdades particulares, está admitindo uma limitação gravíssima em suas potencialidades. Depois de argumentar que os estudos genéticos confirmam que os fatores diferenciais são mínimos no genoma humano – praticamente restritos à corda pele.
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Segundo Magnoli, há duas visões de mundo. Uma ainda acredita que a humanidade se divide em raças. A segunda perspectiva é a advogada por ele: rejeita a separação da espécie humana em categorias convencionadas e defende a igualdade entre as raças. Contra a sociedade imaginada por FHC.
.Outra obra que inspira o debate sobre as políticas afirmativas do governo federal é “Não somos racistas”, de Ali Kamel (Editora Nova Fronteira, 2006, R$ 25). Sociólogo como Demétrio Magnoli, Kamel também é jornalista – ele, aliás, está em um dos cumes da mídia nacional, já que é o diretor da Central Globo de Jornalismo. Menos embasado que o colega de Ciências Sociais, seu livro é uma compilação de artigos publicados desde 2003 no “Globo”. Seus argumentos são semelhantes:?“Raças não existem”, diz ele, recorrendo às descobertas genéticas. Para o jornalista, o governo brasileiro tenta montar uma espécie de farsa para dar satisfação a grupos sociais que integram a máquina partidária que o elegeu. Mas Kamel não crucifica o PT isoladamente. Uma dos maiores interesses do livro é demonstrar como toda essa história de cotas sociais foram ensaiadas no governo Fernando Henrique. O jornalista-sociólogo parece ter prazer em flagrar inconsistências nos primeiros trabalhos acadêmicos de FHC, ainda nos anos 50. Segundo Kamel, o presidente-sociólogo era tendencioso em seus estudos, que desprezava referências contrárias às suas teses e enaltecia quem as comprovava.
.Para o autor de “Não somos racistas” as ações afirmativas iniciadas por FHC são uma manifestação tardia do sociólogo marxista da metade do século passado. A encrenca de Kamel com FHC é muito simples. O primeiro entende que a principal causa das desigualdades no Brasil é a falta de oportunidades, de melhor educação. O problema seria a pobreza e não o racismo. As pessoas seriam discriminadas não pela cor da pele, mas pelo que carregam no bolso. Nos anos 50, FHC considerava esse tipo de conversa como uma alienação (chega a tripudiar dos que a defendiam). Mas o ex-presidente parece ter desprezado o risco de se criar um contingente de cidadãos de segunda classe, que precisam de uma mãozinha para se sustentarem.
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1 comentários:
"Magnoli não tem meias-palavras. A respeito das ações afirmativas, ele é bem direto: “Raça é, precisamente, a reivindicação de um gueto”. Por esse raciocínio, o jovem que se assume como negro para obter um tratamento diferenciado da administração pública ou em vestibulares de faculdades particulares, está admitindo uma limitação gravíssima em suas potencialidades. Depois de argumentar que os estudos genéticos confirmam que os fatores diferenciais são mínimos no genoma humano – praticamente restritos à corda pele."
Outra confusão entre raça no sentido biológico (totalmente furada; aliás, já faz tempo) e "raça" no sentido socio-cultural.
Pessoas que tem a cor da pele negra, geralmente pobres, sempre sofreram preconceito neste país. Nada mais justo do que procurar compensar todas essas injustiças com cotas nas universidades, por exemplo.
"Menos embasado que o colega de Ciências Sociais, seu livro é uma compilação de artigos publicados desde 2003 no “Globo”. Seus argumentos são semelhantes:?“Raças não existem”, diz ele, recorrendo às descobertas genéticas."
Mais outro querendo confundir. Raças biológicas não existem, mesmo, mas o preconceito contra pessoas de cor negra, e outros preconceitos que existem "a rodo" nas sociedades humanas existem sim, e geram diversas injustiças sociais, que podem ser amenizadas com medidas como as cotas "raciais".
É lamentável o título do Livro: "Não Somos Racistas".
Ele quer usar o conhecimento da genética (que novidade, hein!!!) para afirmar que, como não existem raças biológicos, logo, não existe racismo!!!
"Mas o ex-presidente parece ter desprezado o risco de se criar um contingente de cidadãos de segunda classe, que precisam de uma mãozinha para se sustentarem."
"...risco de se criar um contigente de cidadãos de segunda categoria"!!!!!!
Cidadãos de segunda categoria estão sendo criados já faz tempo por essa sociedade injusta, racista. As ações afirmativas, visam, justamente, amenizar essas diferenças, em curto prazo, enquanto a sociedade continaur injusta!!!!
Fazer afirmações como "precisam de uma mãozinha", é sintomático.
Valha-me!!
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