quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Kabengele e o bálsamo racial - 2ª Parte

Demétrio Magnoli

[notas sobre um debate que não existiu – II]

A réplica de Kabengele Munanga (veja o post anterior) é um texto raro. O pensamento racialista no Brasil geralmente aparece envelopado em linguagem deliberadamente equívoca, apresentando-se como um programa de redenção social. Nesse caso, porém, temos uma exposição franca das derivações de uma doutrina que interpreta a história como um drama protagonizado pelas raças.

Munanga escreve: “Entrando na vida privada, gostaria que o sociólogo soubesse que tenho um filho e uma neta mestiços que (...) são educados para assumir sua negritude e evitar assim os graves problemas psicológicos apontados na obra de Eneida de Almeida Dos Reis (...)”.

Cada um educa seus filhos com quer, desde que respeite os direitos legais deles. O antropólogo racialista, segundo ele mesmo, programa seus filhos para serem representantes de uma “raça”. Eu desconfio que o faz em nome de sua própria ideologia. Mas ele declara ser esta uma postura médica, destinada a prevenir a ocorrência dos graves distúrbios psicológicos que imagina andarem junto com a “mescla de raças”.

O “racismo científico” do século XIX enxergava a miscigenação como propulsora de degeneração. A principal justificativa das leis antimiscigenação dos EUA e da Alemanha nazista era evitar a “degeneração racial”. Munanga parece imaginar que “mestiços” tendem à degeneração, mas podem ser “salvos” por uma adequada “educação identitária”. Sinto muito pelos filhos dele, mas isso não é da minha conta. As coisas mudam de figura quando ele projeta aplicar seu bálsamo racial sobre toda a nação.

O antropólogo começa com uma indagação singela: “Eu pergunto se alguém pode se tornar racista pelo simples fato de assumir sua branquitude, amarelitude ou negritude?”.

Tenho duas respostas para isso. A primeira: cada um assume a identidade que quiser, na sua vida privada, e se não tiver coisa melhor para fazer, tem todo o direito de se imaginar ou mesmo se exibir como Homo brancus, Homo amarelus ou Homo negrus. A segunda: na democracia, o Estado não tem o direito de colar rótulos raciais sobre os cidadãos – nem, muito menos, distribuir direitos (no caso, privilégios) segundo tais rótulos.

Depois, como um obcecado, Munanga atribui rótulos raciais aos outros – no caso, a mim. Ele escreve: “Como se identifica então o geógrafo Demétrio: branco, negro, mestiço ou Demétrio indefinido? Pelo que me consta, ele se identifica como branco, mas não aceita que os negros e seus descendentes mestiços se identifiquem como tais e lutem por seus direitos num país onde são as grandes vítimas do racismo.” Bem, Munanga está mal infomado: Demétrio (que não é geógrafo mas sociólogo) jamais se identificou racialmente. Ele não entenderá, mas Demétrio tampouco se identifica como “indefinido”. É que Demétrio despreza a ideia de que as pessoas devam procurar identidades raciais. “(...) não aceita que os negros e seus descendentes mestiços se identifiquem como tais e lutem por seus direitos num país onde são as grandes vítimas do racismo”.
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Munanga pretende utilizar o racismo para produzir uma raça negra autoconsciente. A sua meta, registre-se, não é combater o racismo, mas fabricar a raça. Eu discordo. Acho que o racismo é uma chaga que diminui e desumaniza todos os seres humanos. E que a luta contra essa chaga constitui dever das pessoas de todas as cores.

5 comentários:

♀♥Kiara ♥♀ disse...

"A segunda: na democracia, o Estado não tem o direito de colar rótulos raciais sobre os cidadãos – nem, muito menos, distribuir direitos (no caso, privilégios) segundo tais rótulos."

Só esse trecho acaba com qualquer argumento embasado em "raça", "ação afirmativa"... Qualquer resposta a isso, creio eu, que seja mais um "bla bla bla".

Fico imensamente incomodada em ter que preencher o formulário do Enem, se me considero "branca", "preta", "parda", "amarela" ou "indígena"... Quase que coloquei PRETA, só de raiva! Tipo, pergunta idiota, resposta cretina ¬¬

Jair disse...

Como combater o racismo se persistimos em conceitos de raças? Corte a raiz e não terá a árvore.

Conti disse...

Demétrio,

Sou seu admirador desde O Mundo, que eu lia no ensino médio em 1993.

Não consigo colocar na cabeça como é que alguém que diz lutar para acabar com a discriminação racial, como este senhor, basear todo o seu discurso na.... discriminação racial.

Ele acha que racismo de branco contra negro se combate com racismo de negro contra branco. Como se não fosse exatamente a mesma coisa.

Adrualdo Catão disse...

Combater o racismo significa deixar de lado as diferenças e não enfatizar o conceito de raça.
Parabéns ao blog.
escrevi textos sobre o assunto no meu blog: www.blogdoadrualdo.blogspot.com.
Abraços!

Ana disse...

Fiquei muito preocupada com essa história de distúrbios psicológicos.
Pensei que bastaria ensinar que a vida não é cor de rosa... Será que terei que dizer que ou é branca ou é preta?
E como digo isso?
-Filho, sabe essa turma de loirinhos que você trás aqui em casa e chama de amigos? Eles são diferentes de você e serão seu inimigos futuro adentro.

Certamente será muito saudável para ele se eu deixar o sul e for morar na Bahia. Onde ele possa conviver com pessoas da raça dele.

E digo o quê sobre ter uma mãe e um pai branco? Peço desculpas?
-Arruinei sua vida filho! Você poderia ser um negro consciente de sua negritude se eu não o tivesse adotado.
É com certeza algo bem mais importante do que essa baboseira de amor incondicional que oferecemos.