
Demétrio Magnoli
[notas sobre um debate que não existiu – I]
Publiquei em maio uma coluna em O Estado de S. Paulo e O Globo intitulada “Monstros tristonhos” , que abordava os dilemas das comissões raciais criadas pelas universidades para “certificar” a raça de candidatos inscritos nos sistemas de cotas.
[notas sobre um debate que não existiu – I]
Publiquei em maio uma coluna em O Estado de S. Paulo e O Globo intitulada “Monstros tristonhos” , que abordava os dilemas das comissões raciais criadas pelas universidades para “certificar” a raça de candidatos inscritos nos sistemas de cotas.
A coluna, de menos de 6 mil caracteres, criticava um conceito expresso pelo antropólogo Kabengele Munanga, classificando-o como charlatanismo. Munanga replicou com um texto de quase 24 mil caracteres, que enviou ao Estadão solicitando direito de resposta. Como, naturalmente, o jornal não lhe daria algo como duas páginas inteiras, Munanga acusou a imprensa de parcialidade e distribuiu seu tratado por sites racialistas.
Na minha coluna, citei um trecho da introdução assinada por Munanga a um livro racialista. Eis a passagem:
“Os chamados mulatos têm seu patrimônio genético formado pela combinação dos cromossomos de “branco” e de “negro”, o que faz deles seres naturalmente ambivalentes, ou seja, a simbiose (...) do “branco” e do “negro”. (...) os mestiços são parcialmente negros, mas não o são totalmente por causa do sangue ou das gotas de sangue do branco que carregam. Os mestiços são também brancos, mas o são apenas parcialmente por causa do sangue do negro que carregam.”
Foi isso que classifiquei como charlatanismo. Eu não escrevi que Munanga é um charlatão. Ele resolveu vitimizar-se para circundar o tema em discussão. Contudo, qualquer aluno razoável de ensino médio sabe que não existem cromossomos raciais ou essas “gotas de sangue do branco” nem aquele “sangue do negro” mencionados sem intenções metafóricas. A passagem evidencia que Munanga enxerga uma humanidade dividida em raças biológicas, como fazia o “racismo científico” do século XIX.
Eu acho que isso é grave, quando se sabe que ele é professor titular do Departamento de Antropologia da USP. Mas Munanga está tão aferrado a seus anacrônicos preconceitos que repete a bobagem na réplica. Depois de, curiosamente, sugerir que não li o (péssimo) livro racialista citado, escreve o seguinte: “nada inventei sobre a ambivalência genética do mestiço que não estivesse presente no próprio título da obra Mulato: negro-não-negro e/ou branco-não-branco.” De fato, o que ele fez foi sintetizar em linguagem “biológica” os preconceitos do próprio livro, conferindo-lhes uma credibilidade derivada de sua posição acadêmica.
O livro propõe que “o mulato”, essa entidade abstrata do pensamento racial, seja retificado, abandonando sua suposta “ambivalência” para assumir-se como “negro”, uma outra entidade abstrata do pensamento racial. É, também, o programa de Munanga, expresso numa passagem particularmente abominável:
“Se no plano biológico, a ambigüidade dos mulatos é uma fatalidade da qual não podem escapar, no plano social e político-ideológico eles não podem permanecer (...) “branco” e “negro”; não podem se colocar numa posição de indiferença ou de neutralidade quanto a conflitos latentes ou reais que existem entre os dois grupos, aos quais pertencem, biológica e/ou etnicamente.”
Na concepção da “luta de raças” de Munanga encontram-se os fundamentos do programa de polarização do Brasil entre “brancos” e “negros”, com a supressão política de tudo que não possa ser encaixado nessas duas categorias “puras”. O pensamento racial é, aqui como alhures, uma busca da pureza. Os racialistas brasileiros não suportam a imagem de um país que se entende e define como misturado. Esse é o tema do debate que Munanga enterra sob toneladas de frases ocas.
Na minha coluna, citei um trecho da introdução assinada por Munanga a um livro racialista. Eis a passagem:
“Os chamados mulatos têm seu patrimônio genético formado pela combinação dos cromossomos de “branco” e de “negro”, o que faz deles seres naturalmente ambivalentes, ou seja, a simbiose (...) do “branco” e do “negro”. (...) os mestiços são parcialmente negros, mas não o são totalmente por causa do sangue ou das gotas de sangue do branco que carregam. Os mestiços são também brancos, mas o são apenas parcialmente por causa do sangue do negro que carregam.”
Foi isso que classifiquei como charlatanismo. Eu não escrevi que Munanga é um charlatão. Ele resolveu vitimizar-se para circundar o tema em discussão. Contudo, qualquer aluno razoável de ensino médio sabe que não existem cromossomos raciais ou essas “gotas de sangue do branco” nem aquele “sangue do negro” mencionados sem intenções metafóricas. A passagem evidencia que Munanga enxerga uma humanidade dividida em raças biológicas, como fazia o “racismo científico” do século XIX.
Eu acho que isso é grave, quando se sabe que ele é professor titular do Departamento de Antropologia da USP. Mas Munanga está tão aferrado a seus anacrônicos preconceitos que repete a bobagem na réplica. Depois de, curiosamente, sugerir que não li o (péssimo) livro racialista citado, escreve o seguinte: “nada inventei sobre a ambivalência genética do mestiço que não estivesse presente no próprio título da obra Mulato: negro-não-negro e/ou branco-não-branco.” De fato, o que ele fez foi sintetizar em linguagem “biológica” os preconceitos do próprio livro, conferindo-lhes uma credibilidade derivada de sua posição acadêmica.
O livro propõe que “o mulato”, essa entidade abstrata do pensamento racial, seja retificado, abandonando sua suposta “ambivalência” para assumir-se como “negro”, uma outra entidade abstrata do pensamento racial. É, também, o programa de Munanga, expresso numa passagem particularmente abominável:
“Se no plano biológico, a ambigüidade dos mulatos é uma fatalidade da qual não podem escapar, no plano social e político-ideológico eles não podem permanecer (...) “branco” e “negro”; não podem se colocar numa posição de indiferença ou de neutralidade quanto a conflitos latentes ou reais que existem entre os dois grupos, aos quais pertencem, biológica e/ou etnicamente.”
Na concepção da “luta de raças” de Munanga encontram-se os fundamentos do programa de polarização do Brasil entre “brancos” e “negros”, com a supressão política de tudo que não possa ser encaixado nessas duas categorias “puras”. O pensamento racial é, aqui como alhures, uma busca da pureza. Os racialistas brasileiros não suportam a imagem de um país que se entende e define como misturado. Esse é o tema do debate que Munanga enterra sob toneladas de frases ocas.
8 comentários:
Eu me candidato a dar aulas de genética básica ao Prof Munanga. Para ele, nada cobrarei. Quem sabe assim ele para de escrever bobagem sobre cromossomos.
Marcelo Hermes
Prof de Bioquímica Médica, UnB
O livro propõe que “o mulato”, essa entidade abstrata do pensamento racial, seja retificado, abandonando sua suposta “ambivalência” para assumir-se como “negro”, uma outra entidade abstrata do pensamento racial. É, também, o programa de Munanga, expresso numa passagem particularmente abominável:
“Se no plano biológico, a ambigüidade dos mulatos é uma fatalidade da qual não podem escapar, no plano social e político-ideológico eles não podem permanecer (...) “branco” e “negro”; não podem se colocar numa posição de indiferença ou de neutralidade quanto a conflitos latentes ou reais que existem entre os dois grupos, aos quais pertencem, biológica e/ou etnicamente.”
Na boa, esse trecho me deu medo.
Só faltou sugerir que proibam uniões coloridas, a título de escurecimento da população!
O que o discurso doente deste "antropólogo" não responde é o quanto branco ou o quanto negro uma pessoa tem que ser para poder se "enquadrar" num dos lados? E aquele caso dos irmãos gêmeos que foram classificados um como branco e um como negro, como fica?
Abaixo o racismo dos que se dizem defensores do não racismo.
Não acreditei no que estava lendo na réplica do antropólogo! "Assumir a negritude"? Há muitos anos, desde que me explicaram o modo como os americanos definem como "negro" quem tem qq ascendência negra, ficou claro pra mim que aquela era uma forma imbecil de encarar a questão racial. De repente vemos esse mesmo "pensamento" sendo importado pelo Brasil...
Coitado de nós, sim de nós, saber que a raça humana, sim a única que existe de da qual todas as cutis fazem parte, tem também um ser como Munanga.
aliás desconfio que isso é nome artístico "Kabengele Munanga", que coisa ridícula.
E o que faço eu, branco, casado com uma branca, descendente de negros, filha de um ser mulato ambigüo, nas palavras do senhor Munanga? Eu que sou avô de um ser maravilhoso de 7 anos de idade, branco como leite, portador de traços de anemia falciforme, um atavismo, que segundo me disseram e não sei se é verdade, é uma característica de pessoas de cor negra, devo me posicionar como, diante da opinião do senhor Munanga? Jamais, durante toda a convivência com os parentes de minha esposa, alguns negros, outros não, pude constatar quaisquer traços de raciscmo ou preconceito. Jamais presenciei quaisquer manifestações, por quem quer que seja, de desrespeito ou preconceito e todos foram e são vencedores em suas atividades profissionais e intelectuais, e jamais pleiteraram quaisquer privilégios. É muito bom ver em minha família, esse mosaico de cores, com sobrinhos morenos, mulatos e outros brancos como neve, como o meu netinho, e até uma sobrinha linda de morrer, loira, branca e de olhos azuis. É que meu sogro, mulato, casou-se com uma loira de olhos azuis, acho que aí veio a loirinha agora. Ninguém em nossa família será educado como o senhor Munanga sugere, para assumir essa ou aquela raça, para pedirmos quaisquer privilégios decorrentes de uma lei racista e desagregadora. Somos seres humanos, e ponto! O senhor Munanga é uma pessoa perigosa, suas idéias chegam a me causar muito medo caso ele seja levado a sério e comece a reunir adeptos e venha a causar uma ruptura social futuramento no país.
Não sei o que está ocorrendo com a USP, mas ultimamente de lá tem saido coisas muito perigosas.
Mauro Moreira
Prezada,
Em nenhum momento o professor Kabengele se refere a raças no sentido biológico.
Li o texto de cabo a rabo com a devida atenção. Kabengele, como ele mesmo bem disse no seu artigo, sabe de antanho que essa idéia de raça biológica é furada. A "raça" é no sentido sociológico.
O professor Demétrio e muitos aqui ficam enfatizando a falsidade das raças biológicas como se isso tivesse sido refutado ontem!
No texto o professor Kabengele expõe o seu ponto de vista e rebate o artigo do professor Demétrio da maneira mais elegante possível, com argumentações sólidas e muita lógica, mas sem estardalhaços.
Essa discussão é quente e muito salutar. Agora, seguindo a deixa do leitor anônimo acima, sugiro que o Blog publique a íntegra dos textos de Munanga, para que os leitores possam analisar o conjunto de suas proposições paralelamente as de Demétrio. Se realmente acreditam na força desse anti-racismo, é uma boa mostrar o que os opositores estão defendendo também.
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