quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Kabengele e a utilidade da segregação - 3ª parte

Demétrio Magnoli
[notas sobre um debate que não existiu – III]

No seu volumoso texto de resposta (veja os posts anteriores), Kabengele Munanga tenta driblar a crítica pelo recurso aos cercadinhos das especializações acadêmicas. Essencialmente, escreve que não devo emitir opinião sobre o que ele imagina ser sua área exclusiva. Mas, concede-me generosamente, um direito:

“Isto não quer dizer que ele não possa me ensinar temas pertinentes à geografia, como por exemplo, o que se pode ler em seu livro sobre a África do Sul – Capitalismo e Apartheid, publicado pela Editora Contexto, São Paulo, 1998, que oferece algumas informações interessantes sobre a história do sistema do apartheid. Esse livro faz parte da bibliografia recomendada na disciplina ministrada na Graduação, não obstante algumas incorreções históricas nele contidas.”

A primeira edição do meu livro que ele menciona é de 1986. Eu o escrevi quando tinha 27 anos, como obra de divulgação destinada a estudantes do ensino médio. Fico um pouco envaidecido, mas também um tanto perplexo, com a informação de que Munanga o recomenda na sua disciplina na USP. A passagem dele é confusa: afinal, o livro ensina “temas pertinentes à geografia” ou “oferece algumas informações interessantes sobre a história do sistema do apartheid”?

O meu livrinho contém algumas incorreções históricas? Pode ser, claro. Todos os livros do mundo contêm “algumas incorreções”. Eu gostaria, honestamente, de conhecer essas incorreções e não entendo o motivo pelo qual Munanga escreveu intermináveis 24 mil caracteres mas não indicou nem uma única incorreção no livro que recomenda a seus alunos. Farei diferente dele e indicarei o principal erro do livrinho: um viés conceitual que, desconfio, é o motivo pelo qual Munanga gosta tanto de uma obra já bem antiga.


Meu livrinho tem uma grande qualidade. Num tempo em que o pensamento convencional de esquerda interpretava o sistema do apartheid como um nexo funcional do capitalismo sul-africano, eu o interpretei como um desvio romântico que emperrava o funcionamento da economia capitalista – e que seria destruído pelo choque com a lógica do capitalismo. Isso estava certo. Contudo, a moldura conceitual mais ampla do livro estava errada – e produzia uma narrativa que serve às finalidades ideológicas do multiculturalismo.

Abordei o sistema do apartheid como uma excepcionalidade aberrante e como o fruto do pensamento proto-nazista da Broederbond sul-africana. Hoje, sei que estava errado. Inspirado por textos e conversas com o antropólogo Peter Fry, levantei a bibliografia que evidencia a influência decisiva do pensamento liberal na organização da segregação racial estatal na África do Sul. Esse material mostra que o apartheid sul-africano não é assim tão singular. Na verdade, o sistema configurou-se embrionariamente bem antes da chegada ao poder do Partido Nacional, em 1948, e seus fundamentos enraizavam-se na tradição geral da colonização britânica na África. Minha nova abordagem encontra-se no capítulo 3 do livro Uma gota de sangue – história do pensamento racial (SP, Contexto, 2009).

A colonização britânica na África apoiou-se num multiculturalismo avant la lettre. Segundo essa visão, os colonos de origem européia e os “nativos” africanos estavam irremediavelmente separados pela “raça” e pela “cultura”. A separação na lei serviria aos interesses de ambos, que construiriam mundos autônomos, conservando suas tradições, seus costumes, suas religiões e suas línguas. O apartheid é certamente singular, mas inscreve-se nessa ordem das coisas aplicada a tantas outras colônias britânicas.

Munanga gosta da minha interpretação original – a errada. Ela propicia isolar a África do Sul do apartheid, que se converte em aberração, dos demais regimes coloniais britânicos. Aqueles regimes podiam ser odiosos pois exprimiam o poder europeu sobre povos africanos, mas compartilhavam a noção fundamental que orienta o pensamento de Munanga: o mito da raça. Os britânicos diziam que culturas não devem se misturar. É isso que pensa Munanga – sobre a África e sobre o Brasil. O meu livrinho, involuntariamente, ajuda-o a sustentar essa ideia sem deixar de condenar o apartheid.
Os racialistas querem reinventar o Brasil como uma confederação de raças composta por uma “nação branca” (“eurodescendente”) e uma “nação negra” (“afrodescendente”). A frase “igualdade racial”, que dá nome à Seppir e ao Estatuto Racial, exprimem a doutrina racialista do “iguais, mas separados”. Munanga continuará a gostar do meu livro antigo. Claro que abomina o meu livro novo.

7 comentários:

Anônimo disse...

Caro Magnoli, textos como o seu me fazem acreditar que nem tudo está perdido neçepaiz. Uma tragédia se abateu sobre as universidades brasileiras: a militância esquerdista. Dizer que Munanga pe "professor titular do Departamento de Antropologia da USP", soa para mim quase como uma definição. Brasil: país de raros leitores e raríssimos mestres.

Messias disse...

Prezados blogueiros,

Quero cumprimentar-lhes e parabenizar-lhes pela iniciativa de um movimento contra o racismo e combater o "anti-racismo" militante e oficial das universidades que se julga dono da verdade, mas que de anti-racismo não tem nada, uma vez propõe combater o racismo com mais racismo.

Há alguns anos, passava na TV uma propaganda em que perguntavam a transeuntes: "onde você guarda seu racismo?"
Pode-se afirmar que tal campanha é criminosa, já que acusa pessoas conhecidas de criminosas (racismo é crime inafiançável e imprescritível)? Ou são apenas atores representando cidadãos comuns?
De qualquer forma, o vídeo quer passar a idéia de que toda a população é criminosa e deve confessar o crime.
No site do grupo que promoveu tal campanha (http://www.dialogoscontraoracismo.org.br/), diz:

"Pesquisa realizada pela Fundação Perseu Abramo mostrou que grande parte dos brasileiros - 87% - admite que há discriminação racial no país, mas apenas 4% da população se considera racista.

Há racismo sem racistas? (...)"

Ou seja, se a maioria dos pesquisados admite que exista racismo no Brasil, logo, essa mesma maioria deve confessar o crime.

De acordo com essa "lógica":

Se 100% da população admite que exista homicídio, logo, 100% deve se confessar homicida. O mesmo vale para o estupro, o sequestro, o tráfico de drogas e quaisquer outros crimes.

Os militantes que dizem lutar contra o racismo confundem o fato de existir racismo no Brasil com o Brasil ser um país racista, o que é um equívoco. É o mesmo que dizer que, se existem japoneses no Brasil, a população brasileira é japonesa.
São esses "argumentos" que os racialistas utilizam para promover e tentar impor suas propostas políticas que só prejudicam a nação. É forçar a barra demais.
Os vídeos que citei acima encontram-se no site do grupo.
Sou formado em ciências sociais e durante algum tempo acreditei na falácia do racismo brasileiro. É esse tipo de coisa que se ensina nas universidades brasileiras e são aceitas como dogmas.

Visitarei o blog em outras assiduamente e espero contribuir um pouco e aprender para o combate ao racismo racialista (com o perdão da redundância). Já possuo alguns livros indicados no site e o último que adquiri foi "Uma Gota de Sangue" do Demétrio Magnoli. Infelizmente não pude ir ao debate que ele participou aqui no DF. Fiquei sabendo que militantes atrapalharam.

Um abraço,

Joaquim Messias

Anônimo disse...

Professor Demétrio,

Gostei muito do seu texto. Acho que explica bem por que somos apenas homo sapiens que se adaptaram ao fisicamente ao meio para sobreviver algum tempo e gestar a próxima geração.

As aparentes diferenças nos fizeram mais adaptados, portanto, somos os melhores que a a RAÇA HUMANA produziu, em suas diversas cores e tamanhos.

A idéia de incentivar a nossa separação pela cor, é simplesmente infantil, para não dizer oportunista, posto que; os mercadores brancos de escravos eram supridos por mercadores negros de escravos.

O que era e horroroso é a escravidão, hoje travestida na servidão abjeta a uma CAUSA!

Stefano disse...

Aos corajosos criadores deste blog:

- P A R A B É N S !!

Já virei sócio-divulgador. Força!

Lúcio Lopes disse...

O problema é que a fabricação do racismo é um enorme filão gerador de votos e corrupção!
A "luta" pela "igualdade" racial resulta votos, cargos, boquinhas e bocarras, além de muita grana: Exemplos desta gente: Lula e muitos políticos negros por aí, além daqueles que usufruem de cargos públicos para mamar.
Barack Obama é a antítese desta gente aí.

Alexis Souza disse...

Dr. Demétrio,

Estive no lançamento de seu livro na terça-feira, em Brasília.

Estou adorando o livro, parabéns. Também gostei muito das palestras ministradas. Só lamento o confronto irracional de uma minoria obtusa e facista.

Todos temos o direito a ter opinião, seja ela qual for. O que não se pode permitir é a intolerância que só conduz ao radicalismo.

Anônimo disse...

Fomos abençoados um dia com uma criança linda na porta de casa, tinha somente dois dias de vida, todos foram um pouco pais dela tamanho o amor, vivemos desafios diários; diferenças eram constatadas em nossa vida social, entradas de condomínios, escolas, elevadores, etc. Meu pai um dia resolveu ser sócio de um clube e fomos aceitos, pediram fotos para as carteiras etc, dias depois ele foi chamado pela administração e informado que não seriamos mais sócios, deixando claro que tinham diferenças raciais. Percebiamos que no dia a dia as pessoas estranhavam e se constrangiam com a nossa presença, as vezes com um olhar de compaixão, ou absolvição. Compreendi que a dificuldade em conviver com as diferenças estava no inicio de vida familiar de cada um, que nossos pais tinham e têm que ensinar que as diferenças existem em tudo ao nosso redor e que a igualdade é construida pelo olhar natural de convivência e respeito entre o seu proximo e que as diferenças surgem no decorrer da vida pela falta de identidade e carater, lembrariam que somos inseridos em cor, luz, reflexos, sombras... e que o grande barato da vida esta nessa dinâmica. O que importa é termos condição de nos tornarmos felizes somente. Somos unidos em nossas diferenças.