
Por Roberta Fragoso Kaufmann
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Um dos pontos cruciais para este debate é o de saber o que torna um país racista. Para um país ser considerado efetivamente racista, é preciso que haja uma ideologia disseminada e consolidada por meio de leis, de programas de governo e de decisões judiciais, aceita pela opinião pública, inspiradora de movimentos, partidos e associações, tal como aconteceu, de fato, nos Estados Unidos, quando o Estado dividiu os direitos com base na cor da pele e simplesmente assumiu como correta a segregação institucionalizada, aceita inclusive pela Suprema Corte (caso Plessy vs. Ferguson , 1896, em que um cidadão foi impedido de sentar em um vagão destinado a brancos porque pela regra da ascendência ele era considerado negro. A Suprema Corte disse que a segregação era constitucional e compatível com o princípio da igualdade).
Quando afirmo que o Brasil não é um país racista, não quero dizer que não haja manifestações de preconceito ou de discriminação, mas apenas que tal prática é repudiada pelo cidadão médio que compõe a sociedade. Pode-se afirmar, sem receios, que os Estados Unidos se constituíram em um país altamente racista, porque a segregação era legal, jurídica, institucionalizada, com a presença constante e apreensiva de organizações que pregavam o ódio em relação aos negros e a expulsão dos indivíduos de cor do país. Mas será que o mesmo pode ser afirmado em relação ao Brasil?
O preconceito, de forma isolada, somente seria capaz de provocar alteração na distribuição dos direitos com base na cor dos indivíduos se houvesse na sociedade brasileira a predominância de uma forte ideologia discriminatória, a ponto de produzir a deficiente representação dos negros nos empregos melhor remunerados e nas universidades. Todavia, a realidade sugere a ausência de meios concretos de tal propaganda ideológica. Não há relevantes e conhecidas organizações contra os negros no Brasil, nem mesmo movimentos sociais que objetivem a eliminação do negro da sociedade, tal como acontecia com a Ku Klux Klan e com o Conselho dos Cidadãos Brancos, nos EUA. Do contrário, no Brasil o que se percebe é um esforço nacional e conjunto visando a promover a integração e a solidariedade entre as culturas as mais distintas, e um número cada vez maior de instituições públicas, entidades particulares e organizações não- governamentais unidas para promover a inserção dos negros ao mercado de trabalho, qualificando-os e concedendo-lhes a estrutura mínima para que aspirem a melhores condições de vida.
Quando afirmo que o Brasil não é um país racista, não quero dizer que não haja manifestações de preconceito ou de discriminação, mas apenas que tal prática é repudiada pelo cidadão médio que compõe a sociedade. Pode-se afirmar, sem receios, que os Estados Unidos se constituíram em um país altamente racista, porque a segregação era legal, jurídica, institucionalizada, com a presença constante e apreensiva de organizações que pregavam o ódio em relação aos negros e a expulsão dos indivíduos de cor do país. Mas será que o mesmo pode ser afirmado em relação ao Brasil?
O preconceito, de forma isolada, somente seria capaz de provocar alteração na distribuição dos direitos com base na cor dos indivíduos se houvesse na sociedade brasileira a predominância de uma forte ideologia discriminatória, a ponto de produzir a deficiente representação dos negros nos empregos melhor remunerados e nas universidades. Todavia, a realidade sugere a ausência de meios concretos de tal propaganda ideológica. Não há relevantes e conhecidas organizações contra os negros no Brasil, nem mesmo movimentos sociais que objetivem a eliminação do negro da sociedade, tal como acontecia com a Ku Klux Klan e com o Conselho dos Cidadãos Brancos, nos EUA. Do contrário, no Brasil o que se percebe é um esforço nacional e conjunto visando a promover a integração e a solidariedade entre as culturas as mais distintas, e um número cada vez maior de instituições públicas, entidades particulares e organizações não- governamentais unidas para promover a inserção dos negros ao mercado de trabalho, qualificando-os e concedendo-lhes a estrutura mínima para que aspirem a melhores condições de vida.
Pesquisa recente da Fundação Perseu Abramo aponta que 96% dos brasileiros se declaram não-preconceituosos. Este número pode ser uma mentira, mas é no mínimo revelador sobre o fato de o brasileiro ter vergonha de sentir preconceito e de atuar de maneira discriminatória.
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Diferentemente do que acontece no Brasil, nos Estados Unidos ser negro não é sinônimo de ser pobre. Com efeito, se por um lado a política segregacionista promoveu o ódio entre as raças, por outro fez surgir de maneira incipiente movimentos negros organizados, o que facilitou a ascensão social dos negros no País. Na medida em que os negros se fecharam em castas, somente iguais puderam conviver entre eles. Assim, surgiram Igrejas somente para negros, bem como escolas, clubes, bancos e Universidades. Se uma empresa fosse de um negro, a maioria dos funcionários também o seriam. Com isso, foi possível desenvolver-se uma classe média negra que não encontrou semelhança no Brasil.
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Podemos encontrar a solução para os nossos problemas sem termos de partir para a importação de modelos. No Brasil, na medida em que se integrarem os pobres, certamente os negros serão beneficiados (70% dos pobres são negros), sem sofrermos os ônus da racialização institucionalizada.
7 comentários:
Em adendo ao post da Roberta,
um aspecto relevante é que, de fato, a segregação nos EUA não se dava pela simples ´cor da pele´, mas, era em razão do pertencimento ´racial´: aquela história de 1/16 avos da ancestralidade. Mesmo pessoas de pele branca, se tivesse bisavô preto, seria rotulado como da ´black race´.
Outro aspecto é que nos EUA, tanto os pretos quantos os brancos acreditam no pertencimento racial, o que não temos (e repudiamos) e está bem documentado pela academia, desde ORACY NOGUEIRA (1953, USP) até a Dra. ORNÉLIA (2009, UnB - citada aqui no Blog).
Roberta, destacou a tal classe média afro-americana, porém, THOMAS SOWEL, CORNELL WEST, BARAK OBAMA, KELVIN GRAY e outros intelectuais afro-americanos, dão ênfase ao niilismo social que, desde 1990, se abate sobre os afro-americanos.
A pequena e exibida (pela mídia) classe média afro- americana não compensa as perdas produzidas pela crença racial dos ´black´s´, em que as crianças e jovens ficam impotentes ao compreenderem o pertencimento a uma ´raça inferior´. São números absurdos: 50% dos jovens - 16 a 24 - estão presos ou sob custódia da justiça. Embora apenas 12% da população, representam 70% da gravidez adolescente e 65% dos presos. (blog MIRIAM LEITÃO, 27.12.2008). Embora 40 milhões de afro-americanos e cerca de 5% ou 2 milhões estão presos ou em condicional. A criminalidade, ao contrário do Brasil, atinge a filhos de trabalhadores, executivos, médicos e professores afro-americanos, independente da renda per capita.
Enfim, todos os números revelam que, a despeito das políticas raciais implementadas nos anos 1970-1980, a distância entre brancos x pretos aumenta. Os afro-americanos que tiveram aumento de renda de 1900-1980, nos últimos vinte anos estão perdendo renda média.
O racialismo, produz uma pequena classe média, porém, reduz a auto-estima humana dos afro-americanos. Não é disso que precisamos.
Não é isso que os afro-brasileiros desejam e esperam de políticas públicas de promoção da igualdade. Garantias de Igualdade não equivale a privilégios ´raciais´.
Eu vejo que as pessoas que desejam implementar essas políticas não veem que atingiriam apenas uma pequena parte da população de cor. O sonho de fazer faculdade se perde em meio a gravidez precoce, empregos de baixa categoria e na maioria dos casos em emprego nenhum, males esses que atingem os pobres em geral, não somente os negros.
Esses males são causados por péssimo ensino fundamental, por falta de atenção paterna (às vezes por necessidade) e por excesso de tempo livre e sem supervisão. Também se devem à baixa autoestima, a falta de horizontes e pela honestidade, o caráter e ética estarem tão em baixa em nosso país. Isso é verdade para brancos e negros, pobres e remediados.
A maioria do que no Brasil é chamado preconceito não passa de estranhamento normal a tudo o que é diferente de nós e acontece com todas as etnias em relação às outras.
Isso não pode ser estancado por leis, mas pela convivência harmoniosa entre os diferentes. Minha caçula voltando da creche, um dia me falou de sua amiguinha com o nariz "atachadinho" (achatadinho); não citou sua cor, apenas a diferença do formato do nariz.
Basta haver boas escolas, limpas, com professores capacitados e interessados, que "segurem" as crianças, que promovam seu interesse, que providenciem alimentação, uniforme e material para os que não os têm e que proporcionem um ambiente sadio e seguro.
O ser humano, de qualquer cor, tendo uma base firme de onde se impulsionar, traz em si a capacidade de se elevar sem necessidade de humilhantes pseudomuletas.
O racismo não existe no Brasil mas essas políticas retrógradas e com cheiro de vingança serão responsáveis pela divisão dos brasileiros em negros e brancos, assim como já nos dividem em ricos e pobres, elite e povão, trabalhadores e patrões, esquerda e direita.
Nós e nossos descendentes pagaremos muito caro pelo que estamos deixando acontecer neste país-
Sem dúvida de que o Brasil não é um país racista, mas que existe racismo no Brasil, existe sim!
Caro Anônimo,
Infelizmente o racismo existe no Brasil e deve ser exemplarmente combatido, inclusive deixando-se de considerar que xingar os outros com base na cor da pele é prática de mero crime de injúria.
Mas daí a considerar que vivemos em um País racista, em que os direitos são divididos com base na cor do indivíduo é certamente importar um modelo de realidade que não nos pertence.
Prezada Roberta,
Concordo plenamente. Toda essa história das cotas raciais seria polpada se as cotas fossem, vamos dizer assim, sociais. Seria muito mais justo se se destinassem cotas, nas universidades, para pessoas com baixo poder aquisitivo. Fico revoltado ao ver adolescentes, de "origem humilde", mas com vontade e talento para ser engenheiro, médico, advogado e etc, ter de abandonar os estudos para trabalhar e ajudar nas despesas de casa. Apenas para ilustrar: a minha "cunhada" é um exemplo desse caso. Menina estudiosa, "devoradora de livros", e que gosta de escrever; mas infelizmente teve que abandonar o seu curso de inglês para começar a trabalhar. Existem muitos adolescentes nessas condições. As "cotas sociais" trariam um grande bem para essas pessoas. Sei que não é o melhor remédio para se combater a pobreza, mas ajudaria bastante.
Caro Anônimo,
Não sei se você sabe, mas sou advogada voluntária do Partido Democratas na ADPF 186, ajuizada no Supremo Tribunal Federal contra as cotas raciais da UnB.
Na inicial da Ação, fiz consignar exatamente isto que você apontou: provisoriamente, cotas sociais são a melhor solução para integração inclusive dos negros pobres no ensino superior. A idéia é que as cotas sejam destinadas aos alunos que cursaram o ensino médio em escolas públicas. Apesar de não ser a solução ideal, pois esta seria de fato a melhoria do ensino público, acredito que por enquanto é o melhor exemplo possível de ação afirmativa destinada a promover a integração no ambiente universitário.
Depois se você puder dê uma olhada na inicial da ADPF 186.
Até!
Eu continuo achando que não existe racismo no Brasil.
Eu sei que existem pessoas racistas; tanto racistas quanto preconceituosas, pois negam direitos iguais a negros,
nordestinos, judeus, sul americanos hispânicos, gordos, gays, mulheres…
Essas pessoas são doentes mas não transformam o Brasil em um país racista nem disseminam o racismo entre os brasileiros.
Se o racismo fosse uma constante, os negros e mulatos não representariam mais da metade da população brasileira. Essa miscigenação é a prova mais absoluta da não existência de racismo disseminado no país.
O que existe em todo o território nacional é pobreza e descaso com o ensino e a saúde. Todos os países que investiram em educação básica tiveram um "boom" de desenvolvimento em cerca de dez anos e esse desenvolvimento alcançou toda a população do país. Os chamados tigres asiáticos são os representantes da eficácia dessa prática. Eles investiram em desenvolvimento tecnológico e grande parte dos habitantes deixou inclusive os trabalhos braçais.
Quando no Brasil existirem boas escolas para todos, a pobreza deixará de assolar com tanta intensindade os brasileiros de todas as cores, de todas as religiões, de todos os formatos e de todos os sexos.
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