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Kabengele Munanga e a “aberração mestiça”.
O sociólogo Demétrio Magnoli publicou no jornal O Estado de São Paulo, de 14 de maio de 2009, artigo intitulado “Monstros tristonhos”, no qual relata casos de impugnação de mestiços por “tribunais raciais” montados para julgar aqueles que deveriam ou não usufruir das vagas reservadas a estudantes pretos e pardos (incluídos arbitrariamente na “raça negra”). Revela também, através de citações de passagens da Introdução escrita pelo antropólogo Kabengele Munanga para o livro Mulato: Negro-não-Negro e/ou Branco-não-Branco, de Eneida de Almeida dos Reis (São Paulo/SP: Editora Altana, 2002. Coleção Identidades), uma das ideologias que têm conduzido à discriminação contra mestiços. No artigo, Demétrio Magnoli critica o racialismo e conclui que as cotas raciais visam na verdade levar o mestiço a optar entre ser “branco” ou ser “negro”.
Em “Manifestação do professor Kabengele Munanga acerca da matéria ‘Monstros tristonhos’”, o antropólogo responde ao artigo do sociólogo. Kabengele Munanga é professor titular da Universidade de São Paulo. Dentre suas obras destaca-se Rediscutindo a Mestiçagem – Identidade Nacional versus Identidade Negra. Foi também organizador de Superando o Racismo na Escola, editado pelo Ministério da Educação do governo petista e utilizado na formação de professores. Sua obra é uma referência para, possivelmente, grande parte do ativismo negro no Brasil.
Segundo a autora de Mulato: Negro-não-Negro e/ou Branco-não-Branco, a obra visa “discutir a questão da identidade do mulato buscando elementos explicativos para compreender a sua complexa e contraditória relação com o meio social” (p. 26) e em nota de rodapé ela se explica, “Utilizo o termo mulato porque é o mais comumente usado para designar o negro mestiço, sabendo que o termo vem de mulo, significando animal mamífero, que resulta do cruzamento de jumento com égua ou de cavalo com jumenta”. Na apresentação do livro é informado que ele resultaria da sua dissertação de mestrado em Psicologia Social, na PUC/SP (p. 14). Segundo o antropólogo Kabengele Munanga, em sua “Manifestação...”, “O livro se debruça sobre as peripécias e dificuldades vividas pelos indivíduos mestiços de brancos e negros, pejorativamente chamados mulatos, no processo de construção de sua identidade coletiva e individual, a partir de um estudo de caso clínico”. Chamados por quem?
Não sei se devido à uma inevitável falha humana, mas tanto a autora quanto o antropólogo não informaram ao leitor que a origem do termo mulato é incerta, havendo duas hipóteses mais aceitas: a árabe e a latina. Segunda a primeira, derivaria da palavra árabe muwallad, 'mestiço', derivada de walada, gerar, parir, seja diretamente, seja através da palavra muladi, que fazia referência a cristãos convertidos ao Islã durante a dominação árabe na Península Ibérica. A palavra foi inicialmente aplicada a brancos descendentes de mouros e europeus. Após a chegada dos europeus à América passou também a significar mestiços de pretos e indígenas, de franceses e indígenas, e finalmente, de pretos e brancos. Segundo a hipótese latina, derivaria de mulus, no sentido de híbrido, aplicado inicialmente a qualquer ser. Há uma significativa literatura acadêmica tratando desse assunto, sem chegar a uma conclusão definitiva. A ausência de referência a este fato e a ausência de citação desta literatura em um livro supostamente dedicado à questão do Mulato merece atenção, pois algo assim pode ser esperado em obras de propaganda, mas não em trabalhos com finalidade acadêmica.
A propósito, sou mulato e nunca percebi ter sido chamado pejorativamente por este termo, exceto por alguns ativistas de movimentos negros que se iraram quando assumi minha identidade mestiça numa audiência do Senado em Brasília acerca do PL das Cotas Raciais, e em alguns outros eventos similares. Como dissemos, a tentativa de dar ao termo mulato uma conotação depreciativa visa atingir o objetivo político de constranger o mulato e fazê-lo identificar-se como negro.
Leão Alves é médico, secretário-geral do movimento Nação Mestiça e mora em Manaus. Email: leao_alves@yahoo.com.br
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Kabengele Munanga e a “aberração mestiça”.
O sociólogo Demétrio Magnoli publicou no jornal O Estado de São Paulo, de 14 de maio de 2009, artigo intitulado “Monstros tristonhos”, no qual relata casos de impugnação de mestiços por “tribunais raciais” montados para julgar aqueles que deveriam ou não usufruir das vagas reservadas a estudantes pretos e pardos (incluídos arbitrariamente na “raça negra”). Revela também, através de citações de passagens da Introdução escrita pelo antropólogo Kabengele Munanga para o livro Mulato: Negro-não-Negro e/ou Branco-não-Branco, de Eneida de Almeida dos Reis (São Paulo/SP: Editora Altana, 2002. Coleção Identidades), uma das ideologias que têm conduzido à discriminação contra mestiços. No artigo, Demétrio Magnoli critica o racialismo e conclui que as cotas raciais visam na verdade levar o mestiço a optar entre ser “branco” ou ser “negro”.
Em “Manifestação do professor Kabengele Munanga acerca da matéria ‘Monstros tristonhos’”, o antropólogo responde ao artigo do sociólogo. Kabengele Munanga é professor titular da Universidade de São Paulo. Dentre suas obras destaca-se Rediscutindo a Mestiçagem – Identidade Nacional versus Identidade Negra. Foi também organizador de Superando o Racismo na Escola, editado pelo Ministério da Educação do governo petista e utilizado na formação de professores. Sua obra é uma referência para, possivelmente, grande parte do ativismo negro no Brasil.
Segundo a autora de Mulato: Negro-não-Negro e/ou Branco-não-Branco, a obra visa “discutir a questão da identidade do mulato buscando elementos explicativos para compreender a sua complexa e contraditória relação com o meio social” (p. 26) e em nota de rodapé ela se explica, “Utilizo o termo mulato porque é o mais comumente usado para designar o negro mestiço, sabendo que o termo vem de mulo, significando animal mamífero, que resulta do cruzamento de jumento com égua ou de cavalo com jumenta”. Na apresentação do livro é informado que ele resultaria da sua dissertação de mestrado em Psicologia Social, na PUC/SP (p. 14). Segundo o antropólogo Kabengele Munanga, em sua “Manifestação...”, “O livro se debruça sobre as peripécias e dificuldades vividas pelos indivíduos mestiços de brancos e negros, pejorativamente chamados mulatos, no processo de construção de sua identidade coletiva e individual, a partir de um estudo de caso clínico”. Chamados por quem?
Não sei se devido à uma inevitável falha humana, mas tanto a autora quanto o antropólogo não informaram ao leitor que a origem do termo mulato é incerta, havendo duas hipóteses mais aceitas: a árabe e a latina. Segunda a primeira, derivaria da palavra árabe muwallad, 'mestiço', derivada de walada, gerar, parir, seja diretamente, seja através da palavra muladi, que fazia referência a cristãos convertidos ao Islã durante a dominação árabe na Península Ibérica. A palavra foi inicialmente aplicada a brancos descendentes de mouros e europeus. Após a chegada dos europeus à América passou também a significar mestiços de pretos e indígenas, de franceses e indígenas, e finalmente, de pretos e brancos. Segundo a hipótese latina, derivaria de mulus, no sentido de híbrido, aplicado inicialmente a qualquer ser. Há uma significativa literatura acadêmica tratando desse assunto, sem chegar a uma conclusão definitiva. A ausência de referência a este fato e a ausência de citação desta literatura em um livro supostamente dedicado à questão do Mulato merece atenção, pois algo assim pode ser esperado em obras de propaganda, mas não em trabalhos com finalidade acadêmica.
A propósito, sou mulato e nunca percebi ter sido chamado pejorativamente por este termo, exceto por alguns ativistas de movimentos negros que se iraram quando assumi minha identidade mestiça numa audiência do Senado em Brasília acerca do PL das Cotas Raciais, e em alguns outros eventos similares. Como dissemos, a tentativa de dar ao termo mulato uma conotação depreciativa visa atingir o objetivo político de constranger o mulato e fazê-lo identificar-se como negro.
Leão Alves é médico, secretário-geral do movimento Nação Mestiça e mora em Manaus. Email: leao_alves@yahoo.com.br
4 comentários:
Parabéns pelo blog.
Concordo inteiramente com a essência dos posts que li aqui: não há raças, somos todos iguais apesar das diferenças.
mas tanto a autora quanto o antropólogo não informaram ao leitor que a origem do termo mulato é incerta, havendo duas hipóteses mais aceitas: a árabe e a latina. Segunda a primeira, derivaria da palavra árabe muwallad, 'mestiço', derivada de walada, gerar, parir, seja diretamente, seja através da palavra muladi, que fazia referência a cristãos convertidos ao Islã durante a dominação árabe na Península Ibérica. A palavra foi inicialmente aplicada a brancos descendentes de mouros e europeus.
Muito estranho o citado livro não falar disso! ¬¬
O livro Superando o racismo na educação foi reeditado em 2005, porém, foi editado primeiramente em 1999 no governo do PSDB. Será porquê está informação não consta no artigo de Leão?
Boa, Allysson!
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