domingo, 12 de fevereiro de 2012

Encefalômetro: a máquina sinistra de medir supostas raças

Globo.com

sex, 10/02/12

por yvonnemaggie



Nunca me sinto totalmente à vontade em museus “etnográficos”. Se de um lado pode-se ver a riqueza da criação humana, de outro, tudo fica organizado sob a ótica ocidental. Não poderia ser diferente, pois na expressão de Franz Boas: “O olho que vê é o órgão da tradição”.
O museu do quai Branly não foge à regra dos museus etnográficos que se modificam à medida que o conhecimento humano sobre o outro ganha novos sentidos. Logo na entrada  vê-se projetado no chão uma infinidade de nomes de grupos ou “etnias” e de tantas que se somam, e vão se sobrepondo, terminam num emaranhado no qual os nomes não mais se distinguem, permanecendo apenas o desenho da luz branca semelhante à  uma pintura a giz feita por muitas mãos infantis como se rabiscassem traços ondulados. A ideia é exatamente mostrar que as diferenças fazem parte do acervo humano, único, universal e maravilhoso.
O prédio moderno contrasta com o bairro de estilo francês típico: edificações baixas e pequenas sacadas onde, na primavera, há flores de diversas cores. A beleza arquitetônica e a forma de organizar as exposições são primorosas. A reserva técnica fica semiaparente, no centro do prédio, e o visitante, ao subir a rampa do museu, pode ver os objetos guardados que excitam sua imaginação. As coleções de cada continente são frequentemente reorganizadas. Da última vez que lá estive pude ver os famosos braceletes e colares do ritual do Kula, descrito no fabuloso Os argonautas do pacífico ocidental,de Bronislaw Malinowski.
Pude apreciar, desta vez, a exposição temporária intitulada A invenção do selvagem. Ao entrar acompanhamos as primeiras pinturas e desenhos do encontro entre a civilização ocidental e o “outro”. Um pequeno desenho do livreto comemorativo da entrada do rei Henrique II na cidade de Rouen, em 1550, retrata a cena triunfal do monarca com índios tupinambás de carne e osso, anos antes dos relatos de Jean de Léry e André Thevet serem conhecidos do público francês. O desenho descreve a forma com que os indígenas expostos foram reverenciados e “experimentados” exatamente como viviam nas suas aldeias.
A mostra retrata, de muitos pontos de vista, o encontro com o outro e as diversas formas de concebê-lo, desde a descoberta do Novo Mundo no século XVI até meados do século XX, por meio de cartazes, fotos, filmes e objetos. Uma longa série de referências às exposições mundiais que levaram milhares de pessoas para ver, ouvir e tocar nas figuras exóticas ali apresentadas. Nos corredores à meia luz do museu vão se sucedendo encontros inusitados até que o olhar se deixa pousar sobre o encefalômetro, máquina de meter medo, usada no século XIX para definir as “raças humanas”. Ao lado desta máquina tenebrosa, um desenho a bico-de-pena de crânios  representando as diversas “raças”.
Na mesma sala estão também  fotografias de Saartje Baartman, a “Venus Hotentote”, exibida em feiras e circos na França e na Inglaterra no final do século XVIII e início do XIX. A história de Saartje – a Pequena Sarah (1789-1915) – que falava holandês fluentemente, pode ser vista como uma metáfora de parte da história do encontro com o outro. Saartjie Baartman nasceu no seio de uma família khoisan no vale do rio Gamtoos, na atual província do Cabo Oriental na África do Sul. Esta é a forma africânder do seu nome –  Saartjie (pronunciado “Sarqui”) e traduzido como “Pequena Sarah”. Saartjie morreu na França depois de ter tido exposta de várias formas para demonstrar as características de uma “etnia”. Seus restos mortais só voltaram à sua cidade natal por solicitação oficial de Nelson Mandela, em 2002. Mas este caso da Pequena Sarah daria um outro post.
Próximo ao encefalômetro, projetado na parede, uma pequena ficha explicativa, sempre usando os verbos no passado, mostra como a diversidade humana foi aos poucos sendo explicadas pela ideia de raça que hierarquiza as diferenças e atribui às distinções biológicas características morais. Alguns antropólogos, no início do século XIX, fizeram desta chave explicativa uma saída para o entendimento da humanidade abrindo, assim, uma porta para as ideologias de dominação dos considerados de “raça superior” sobre os de “raça inferior”. Ao meu lado, uma visitante francesa, espantada, concluiu que realmente havia distinções marcantes entre os crânios das diversas “etnias”. Ao ouvir esta senhora concordar com os antropólogos racistas do tempo da máquina de construir diferenças inexistentes fiquei horrorizada. Na França de hoje, depois de uma guerra sangrenta movida pelo pensamento racista, ainda há quem, olhando aquela exposição, entenda as supostas raças como verdadeiras. Esse fato me fez ver que mesmo quando se quer criticar o pensamento racista, ele se introduz de modos insuspeitos. A única forma de extirpar a lógica racista é destruindo a ideia de raça e não reforçando-a. A antropologia demorou mais de um século para se livrar daquela máquina frankensteriana na qual mediam os índices cefálicos das populações com o intuito de definir diferenças entre os crânios das supostas raças.
Saí do museu do quai Branly refletindo sobre o Brasil de hoje e imediatamente pensei nas consequências do reforço da ideia de raça.  Aqui, os tribunais raciais realizados em algumas universidades públicas podem acabar se tornando um tiro pela culatra e prenúncio de um caminho que produziu tanto sofrimento à Pequena Sarah e a milhares de outras pessoas em nome da raça. Os promotores destes tribunais discordam dessa afirmação e dizem que estão fazendo a seleção entre verdadeiros e falsos negros para o bem destes últimos. Mas até quando terão o controle sobre os resultados da sua engenharia social de alto risco e eficácia duvidosa?

3 comentários:

Anônimo disse...

Acho que lá tem um comentário seu, Roberta. Muito bom! Acima do seu comentário tem um tal de Pelegrini, aliás dois. Santo Deus! Que horror de coisa que o cara escreveu.

http://g1.globo.com/platb/yvonnemaggie/2012/02/10/encefalometro-a-maquina-sinistra-de-medir-supostas-racas/#comments

Eduardo & Goretti
Natal/RN

NoRace (administrado por Roberta Fragoso Kaufmann) disse...

Eu também vi esse cara....Fiquei chocada...
O comentário é meu mesmo!!!
Beijos!

Anônimo disse...

William e Márcio Pelegrini. Devem ser os mais novos Bolsonaros no pedaço. E ainda se utilizam daquele velho discurso fundamentalista cristão ao longo do texto. Terrível.